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Domingo, 5 de Setembro de 2010
 
 
Uma espécie em extinção | Imprimir |  E-mail
Qua, 28 de Julho de 2010 11:13

Arlindo Porto

De tudo quanto está acontecendo no país, sobrevive apenas uma triste constatação, a de que, como os dinossauros, que um dia viveram sobre a crosta deste planeta e que desapareceram engolidos por causas misteriosas, também uma espécie vivente está em extinção no Brasil: a dos homens de bem. Honestidade neste país virou palavrão.


Brasileiro é considerado besta, quando passou por cargos públicos, ocupou funções de destaque, engordou seu currículo com episódios em que a verticalidade do seu caráter serviu de exemplo, lidou com dinheiros gordos sem se apossar de boa parte deles, e apesar de tudo isso, permanece pobre.

Feio, desconforme e até meio desengonçado, tal como os dinossauros, seus similares na pré-história, quando aqueles animais caminhavam pesadamente, assustando os bichos menores com sua presença, assim o homem de bem, no Brasil, é um estorvo para a esmagadora maioria. Ele não se adapta aos costumes gerais. Ele não concorda em pagar nem em receber propinas, chegando mesmo a se irritar quando lhe oferecem comissões.

Entende que os negócios devem ser feitos com lisura e transparência e que as pessoas devem ser pagas pelo que merecem e não pela proteção de alguém.
O homem de bem é leal aos seus amigos e serve sem jamais esperar compensações.

Tal como os dinossauros que se extinguiram um dia e nunca mais voltaram a aparecer, a não ser com a sua ossada reproduzida em fósseis, o homem de bem não bajula, não incensa, não calunia, não cede em suas convicções para obter favores.

Alguns poucos ainda o admitem e ainda buscam colher nele exemplos que, com algum esforço, podem ser esporadicamente imitados.

Mas a maioria das pessoas o detesta, pois o homem de bem, tal como os dinossauros, destoa do mundo em que ela, a maioria, vive e aceita como natural. Para muita gente, o homem de bem é uma anomalia.

Cada homem de bem que morre não é mais substituído, como antigamente ocorria, e a raça vai se extinguindo. Dia chegará em que não restará mais nenhum deles, sepultados que serão, tal como os dinossauros, por camadas e camadas de terra.

E tal como aconteceu como os grandes e mal enjambrados bichos que a Pré-História engoliu, desse espécime em extinção só restarão apenas alguns esqueletos, em museus do futuro, reconstituídos para o estudo de uns poucos curiosos.

Mas mesmo esses curiosos olharão então para aqueles esqueletos de homens cuja característica maior será a espinha dorsal retilínea e sem curvas, dizendo uns para os outros: “Eles eram uns chatos...”.

Arlindo Porto é jornalista, escritor, ex-deputado estadual e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas

 

 
Comentários (1)
Realidade
1 Sáb, 07 de Agosto de 2010 20:58
As décadas se passam e o homem do bem se afasta da vida dos seres humanos cada vez mais.
Pessoas se tornam individualistas, e todos estão em busca de seus próprios interesses.

Infelizmente esta é a realidade do mundo em que vivemos.

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