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Arlindo Porto
De tudo quanto está acontecendo no país, sobrevive apenas uma triste constatação, a de que, como os dinossauros, que um dia viveram sobre a crosta deste planeta e que desapareceram engolidos por causas misteriosas, também uma espécie vivente está em extinção no Brasil: a dos homens de bem. Honestidade neste país virou palavrão.
Brasileiro é considerado besta, quando passou por cargos públicos, ocupou funções de destaque, engordou seu currículo com episódios em que a verticalidade do seu caráter serviu de exemplo, lidou com dinheiros gordos sem se apossar de boa parte deles, e apesar de tudo isso, permanece pobre.
Feio, desconforme e até meio desengonçado, tal como os dinossauros, seus similares na pré-história, quando aqueles animais caminhavam pesadamente, assustando os bichos menores com sua presença, assim o homem de bem, no Brasil, é um estorvo para a esmagadora maioria. Ele não se adapta aos costumes gerais. Ele não concorda em pagar nem em receber propinas, chegando mesmo a se irritar quando lhe oferecem comissões.
Entende que os negócios devem ser feitos com lisura e transparência e que as pessoas devem ser pagas pelo que merecem e não pela proteção de alguém. O homem de bem é leal aos seus amigos e serve sem jamais esperar compensações.
Tal como os dinossauros que se extinguiram um dia e nunca mais voltaram a aparecer, a não ser com a sua ossada reproduzida em fósseis, o homem de bem não bajula, não incensa, não calunia, não cede em suas convicções para obter favores.
Alguns poucos ainda o admitem e ainda buscam colher nele exemplos que, com algum esforço, podem ser esporadicamente imitados.
Mas a maioria das pessoas o detesta, pois o homem de bem, tal como os dinossauros, destoa do mundo em que ela, a maioria, vive e aceita como natural. Para muita gente, o homem de bem é uma anomalia.
Cada homem de bem que morre não é mais substituído, como antigamente ocorria, e a raça vai se extinguindo. Dia chegará em que não restará mais nenhum deles, sepultados que serão, tal como os dinossauros, por camadas e camadas de terra.
E tal como aconteceu como os grandes e mal enjambrados bichos que a Pré-História engoliu, desse espécime em extinção só restarão apenas alguns esqueletos, em museus do futuro, reconstituídos para o estudo de uns poucos curiosos.
Mas mesmo esses curiosos olharão então para aqueles esqueletos de homens cuja característica maior será a espinha dorsal retilínea e sem curvas, dizendo uns para os outros: “Eles eram uns chatos...”.
Arlindo Porto é jornalista, escritor, ex-deputado estadual e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas
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Pessoas se tornam individualistas, e todos estão em busca de seus próprios interesses.
Infelizmente esta é a realidade do mundo em que vivemos.